Nutri-score: Os Desafios da Literacia Alimentar na Indústria

Out 30, 2024

A literacia alimentar tem-se tornado cada vez mais relevante à medida que o comportamento dos consumidores evolui, especialmente no setor alimentar. Com uma maior procura por informação nutricional, preocupações crescentes com a saúde e uma consciência ambiental mais forte, os consumidores estão mais exigentes e atentos à qualidade dos alimentos que consomem. Neste cenário, ferramentas como sistemas de classificação nutricional têm desempenhado um papel essencial na tomada de decisões rápidas e informadas. Descubra como a indústria alimentar pode superar o desafio de se adaptar a estas novas exigências, assegurando transparência e conquistando a confiança dos consumidores.

A Evolução do Comportamento dos Consumidores e a Importância da Literacia Alimentar

O comportamento dos consumidores tem evoluído de forma significativa, particularmente no setor alimentar, onde a procura por mais informação nutricional, preocupações com a saúde e uma crescente consciência ambiental são tendências dominantes. Neste contexto, a literacia alimentar emerge como uma ferramenta crucial, juntamente com sistemas de classificação nutricional, como as tabelas, os semáforos ou o Nutriscore, que facilitam uma análise rápida e informada. Contudo, estas mudanças representam desafios significativos para a indústria alimentar, que agora enfrenta a necessidade de responder às exigências de consumidores cada vez mais atentos à qualidade dos alimentos e ao impacto ambiental das suas escolhas. 

As tabelas nutricionais e a lista de ingredientes fornecem informações detalhadas sobre a composição dos alimentos, mas a sua correta interpretação requer algum conhecimento em nutrição. Para simplificar essa tarefa, foram desenvolvidos sistemas de classificação visual, como o semáforo alimentar e o Nutriscore, que permitem aos consumidores avaliar rapidamente a qualidade nutricional dos produtos embalados. 

Nutri-Score: Oportunidades e Desafios para a Indústria 

Em abril de 2024, foi emitido um despacho que recomenda às indústrias alimentares a adoção do Nutri-Score como medida de saúde pública, com o objetivo de promover uma alimentação mais saudável. 

“De acordo com o  Despacho n.º 3637/2024, de 4 de abril, a Direção-Geral da Saúde deverá desenvolver, num prazo de 120 dias, o processo de implementação do Nutri-Score. Este processo de implementação será sujeito a coordenação com entidades públicas e privadas dos setores alimentar e económico.” (PNPAS,2024)

Nutri-score logótipo

O Nutri-Score oferece aos consumidores uma forma rápida e acessível de avaliar a qualidade nutricional de um produto, utilizando uma escala de A a E. Este sistema avalia tanto os nutrientes menos favoráveis à saúde, como as gorduras saturadas, os açúcares e o sal, quanto os nutrientes benéficos, como as proteínas, fibras, frutas e vegetais. Através de um algoritmo, o Nutri-Score equilibra a presença destes nutrientes e, com base nessa relação, atribui uma classificação nutricional clara e fácil de interpretar. 

No entanto, existem algumas críticas ao sistema. Um alimento processado com elevados níveis de sal, por exemplo, pode melhorar a sua classificação se forem adicionadas fibras ou proteínas, passando de uma categoria D para C ou B. Da mesma forma, produtos com uma elevada quantidade de aditivos podem transitar de um rótulo vermelho para verde. Este mecanismo pode induzir os consumidores em erro, levando-os a acreditar que o produto é saudável e pode ser consumido sem restrições, em oposição a produtos classificados como D ou E. 

Na prática, a indústria pode ajustar os ingredientes para melhorar a classificação nutricional de um alimento, sem necessariamente elevar a sua qualidade. É essencial que as empresas alimentares saibam como desenvolver produtos genuinamente mais saudáveis, que, ao obterem uma classificação A ou B, possam ser escolhidos pelos consumidores com a confiança de que não comprometem a saúde. 

A adoção do Nutri-Score deve ser vista como um investimento positivo, capaz de aumentar a confiança do consumidor, desde que as melhorias nos produtos sejam feitas de maneira honesta, sem recorrer a aditivos ou adulterações nas rotulagens. Caso contrário, é preferível que os produtos mantenham as classificações de D ou E, já que há espaço para esses alimentos na dieta, desde que sejam consumidos com moderação.

Os alimentos sem rótulo, os frescos, especialmente os tradicionais da dieta mediterrânica, devem ser sempre a primeira escolha. No entanto, ao optar por alimentos processados, é essencial ler atentamente o rótulo, conhecer os ingredientes e utilizar o Nutri-Score como uma ferramenta de apoio, mas sem o encarar como uma verdade absoluta.

Soluções Tecnológicas e a Digitalização na Indústria Alimentar

Para o consumidor, é essencial estar bem informado, desenvolver literacia alimentar e ter plena consciência das suas escolhas alimentares. Para a indústria, o grande desafio é assegurar que as melhorias sejam implementadas de forma genuína, construindo a confiança dos consumidores e promovendo um consumo consciente e seguro. 

Digitalização na Era da Literacia Alimentar

A implementação de soluções tecnológicas, como um software de controlo da qualidade, oferece à indústria várias vantagens. A digitalização permite enfrentar os desafios da literacia alimentar e dos consumidores conscientes através de:

- Rastreabilidade: A tecnologia permite monitorizar toda a cadeia de produção em tempo real, fornecendo dados sobre a origem dos ingredientes e garantindo que os produtos cumprem normas ambientais e de qualidade. Isso oferece aos consumidores a transparência que procuram. 

- Controlo da Qualidade: Sistemas digitais, como o ACCEPT, facilitam o controlo estatístico dos processos, permitindo uma intervenção rápida em caso de desvios, assegurando que apenas produtos conformes chegam ao mercado, minimizando desperdícios.

- Certificações e Conformidade: A digitalização de registos facilita a conformidade com normas de segurança alimentar e certificações, agilizando auditorias e inspeções externas. 

Para enfrentar com sucesso os desafios da literacia alimentar e das novas exigências dos consumidores, a adoção de soluções tecnológicas que assegurem a transparência, a qualidade e a sustentabilidade é essencial. Empresas que apostam em inovação e digitalização conseguem responder às expectativas do mercado e fortalecer a confiança dos consumidores nas suas escolhas. Se a sua empresa procura formas de se adaptar a esta nova realidade, explorar ferramentas que otimizem o controlo da qualidade pode ser um passo decisivo. 

Conclusão

A digitalização oferece inúmeras vantagens à indústria alimentar, permitindo-lhe responder de forma eficaz às novas exigências dos consumidores.  

Com soluções tecnológicas, como softwares para controlo da qualidade, as empresas podem garantir a rastreabilidade completa da cadeia de produção, assegurando a transparência sobre a origem dos ingredientes e o cumprimento de normas de qualidade. Estes sistemas também facilitam o controlo dos processos, permitindo uma intervenção rápida quando necessário e minimizando desperdícios. Além disso, a automatização de registos torna mais simples a conformidade com certificações e auditorias, enquanto a monitorização ambiental ajuda as empresas a adotar práticas mais sustentáveis e alinhadas com as expectativas do mercado. 

Patrícia Carreira

Mestre em Tecnologia e Segurança Alimentar pela FCT-UNLisboa. Realizou estágios na Chemiphar, Brugge e no grupo Lusiaves no departamento da qualidade, apoiando a implementação da IFS. Foi Responsável de Higiene e Segurança Alimentar na Panicongelados, SA e na Clara&Gema. Atualmente, desempenha funções de Consultora de Projetos na Sinmetro.

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